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terça-feira, 15 de setembro de 2009

Tjukkmølk e outras gostosuras

Não é segredo, nem pra mim nem pra ela, a minha predileção pelo blog da Claudia, Sabor Saudade. Quando ela começou a postar sobre as colheitas de mirtilos desse ano, me chamou ainda mais a atenção, e daí por diante virou mania. Adoro reproduzir as receitas dela. Nem todas, mas as que me fazem quase verter lágrimas!

Então, ela postou a famosa torta de mirtilos com amêndoas, que eu fiz e não ficou muito bonita - mas deliciosa de todo o jeito. Bem, um dia tive uma idéia... Foi no dia em que fui ao mercado de produtos locais com minha sogra. Nesse mesmo dia, encontramos uma loja de utensílios domésticos e louças com 50% de desconto EM TODA A LOJA! Jubileu de 270 anos da marca, imaginem! Comprei, então, umas forminhas refratárias pequenas, pra poder fazer tortinhas menores no forno. 5 reais cada uma!!! E nesse mesmo dia eu ia almojantar com a sogra e cunhada, e queria fazer uma sobremesa. Pensei na torta de mirtilos, mas não tinha mais tempo pra fazer massa e tudo o mais. Então abri o post da Claudia pra rever como ela tinha feito as tortinhas menores, e concluí que deveria ter sido só o recheio, pelo que me lembrava, e então fui fazer só o recheio, que é muito simples. Só que dessa vez, assei mais tempo, e elas estufaram como souflês. Ao sair do forno, também caem como os suflês, mas o resultado foi um sucesso tremendo. Marit e Sylvia comeram a tortinha com molho de baunilha desses que vendem prontos por aqui, e ficou bããããããoooo.... Abaixo, as danadas no forno, e depois de prontas. A receita tá lá no blog da Claudia.



Então, pra esperada visita da irmã e cunhado, repeti a dose... Ficaram ótimas, de novo. E nessa onda de preparação pra chegada das visitas, fui às compras com Lars. Queríamos comprar várias coisas típicas, como o queijo marron (que minha irmã adorou), perna de carneiro seca e salgada (chamada de fenalår), e outras coisinhas mais. A maior surpresa entretanto, foi encontrar o tal Tjukkmølk, de Røros, no Eurospar perto de casa. Eu tava doida pra experimentar esse produto que é típico de Røros, só feito lá mesmo, e que eu soube da existência por causa do programa Smaken av Norge da TV2. Comprei um, sem nem saber como usar. No programa de TV, o chef, que dirige um restarante e hotel em Røros, fez flan, com calda de multe, a framboesinha amarela.

Então, comecei a pensar em panna cotta, uma sobremesa italiana bem comum (creme cozido seria a tradução), sobre a qual a Claudia já havia postado bastante, e que nós fazemos de sobremesa no hotel. Mas seria uma panna cotta diferente, pois o tjukkmølk tem um sabor diferente. Então, primeiro seria preciso prová-lo. Abri a embalagem, um cremão grosso dentro, com sabor de... Iogurte! Mas assim, um iogurte natural bem forte, nada liso. A consistência era bem estranha... Pela luz da foto, acho que dá pra perceber que ele é assim, "crespinho", e bem grosso mesmo, e forma fios como baba...



Fiz a panna cotta, mas usei leite desnatado ao invés de creme de leite. Leite desnatado esse que fervi com as sementes de amburana que a Claudia me mandou de presente. Misturei o açúcar, dissolvi a gelatina, depois adicionei o tjukkmølk. E ficou com sabor de... côco!!! Abaixo, as panna cottaS (qual o plural em italiano?) e as tortinhas de mirtilos...



Pra servir com elas, tinha comprado groselhas vermelhas, que apenas misturei com um pouquinho de açúcar.


No fim, no dia da chegada comemos as tortinhas de mirtilo. As panna cottaS (acho que seria panna cotte, né?) ficaram na geladeira pra só serem devoradas Domingo, na volta do chalé, como sobremesa de um jantar de horrorosas pizzas congeladas. A gelatina não pegou, ou seja, elas não endireceram muito, ao invés ficaram um creme bem viscoso. Mas ficaram bem boas, e as groselhas curtiram no açúcar e ficaram com uma caldinha grossa! A mescla dos dois sabores foi um casamento perfeito.

Agora, só descobri a total plenitude e delicadezado tjukkmølk na segunda. Voltei da escola (Lars e os dois foram me buscar e depois saíram pra fazer mais algumas fotos) com fome. Achei uma sobra de mirtilos na geladeira, e o restinho de tjukkmolk, efiz como fazem os noruegueses, que comem os mirtilos amassados com açúcar e leite. Ao invés do leite, usei o tjukkmølk. Quando terminei meu pratinho, queria chorar, pois havia acabado MESMO! Agora procuro o bicho por todos os lados, mas não acho mais! Buáááááááááá´...



quinta-feira, 30 de julho de 2009

Idéia de Jerico

Putz, ouvi essa frase a vida toda, mas fui me informar, pra descobrir que Jerico é só mais um dos nomes do burro! Vivendo e aprendendo! Mas a minha idéia de Jerico até que deu certo... Ainda tava com a geladeira lotada de mirtilos. Os bolinhos que fiz na terça já eram... Ficaram bons demais. Então hoje fui comprar almojantar pra mim e vi umas framboesas divinas, locais. Comprei uma caixinha. Resolvi fazer uns cup cakes de framboesa e mirtilos, usando como base a receita do bolo de cenoura do Rainhas do Lar. Fiz só metade da receita, e ao invés de cenouras, usei 6 morangos picados, meia xícara de framboesas frescas e meia xícara de mirtilos inteiros. Creio que se quiserem usar fruta congelada, também dá certo. Gosto dessa receita porque ela é muito fácil e rápida...



Morangos, mirtilos e framboesas com dois ovos inteiros mais meio copo de óleo no liquidificador. Em outra vasilha, peneire 1 xícara e meia de farinha de trigo com uma colher de sopa de fermento em pó (o que uso aqui na Noruega parece ser mais fraco, então uso mais), e depois acrescente uma xícara de açúcar. Então adicione aos poucos o conteúdo do liquidificador aos ingredientes secos, aos poucos, mexendo delicadamente. Ao final da operação, a massa ficará assim



Então, adicionei à essa massa um punhado de mirtilos inteiros, e ao colocar a massa nas forminhas, primeiro enchi só a metade, coloquei uma framboesa bem no meio, e completei com a mais massa.



Olha só os danados, antes de assar, e assando...



E depois de prontos



Por fora ficou com casquinha, e douradinho, e por dentro, a framboesa derreteu, e o sabor ácido dela cortou um pouco do doce da massa, assim como os mirtilos frescos. Ficou delicioso, e não ficou tão roxinho como eu pensei que ia ficar, mas ficou um pouquinho...

Acho que vou mandar essa receita pro Rainhas, pro Receitas das Comadres... Afinal, a receita original é delas!

Agora, um pouquinho sobre os mirtilos... Tem propriedades adstringente, antibacteriana, antidiarréica, estimulante da circulação sanguínea, hipoglicêmica e tônica. Seu consumo reduz a taxa de açúcar do sangue e o colesterol, e dizem que o vinho de mirtilos é bom pra tratar diarréia... São ricos em Vitaminas A, C, E e beta-caroteno e em minerais (potássio, manganês e magnésio). De acordo com estudos recentes, os mirtilos são uma das melhores e maiores fontes de antioxidantes, que previnem a formação de radicais livres no organismo, previnem a deterioração de células causada por câncer e combatem o envelhecimento das células. Os anti-oxidantes ainda são excelentes na prevenção de doenças cardíacas ou câncer. Os mirtilos possuem ainda resveratrol, o mesmo anti-oxidante presente nas uvas tintas e seus vinhos, e que faz com que se acredite - ainda sem muita prova científica, mas com os franceses como exemplo vivo - que reduz o colesterol do sangue. (Fonte aqui)

Agora estou querendo ir outra vez este fim de semana colher mirtilos - aqui ao redor da cidade mesmo, porque no chalé, só daqui duas semanas - pra lotar o freezer com eles, e ter fruta pra fazer tortas, cup cakes e vitaminas o inverno todo. Até o tal médico da Oprah (sim eu adoro a Oprah! Eu vi a Oprah durante a inauguração do Freedom em NY...), Dr. Oz, vive dizendo que é preciso comer muito mirtilo , açaí, etc...

E pra terminar, uma fotinho dos meus pés de alface e meu basilicão... O basilicão está com umas manchinhas amareladas nas folhas. Achei que fosse muitaluz, botei-os pra dentro de casa e eles melhoraram... Mas os alfaces estão lindos! Logo comerei minha própria salada!


quinta-feira, 23 de julho de 2009

Frenesi de peixe, e uma vontade argentina

Nessa última semana, por causa da pescaria, mas também por causa da descoberta de uma peixaria de verdade, perto da casa do irmão do Lars. Tem maior variedade de peixes - e cortes. Estivemos lá semana comprando bacalhau fresco, porque eu tava com vontade de comer - ironia, não imaginava que íamos pescar um monte de bacalhau no fim de semana! Enfim, compramos o bacalhau, e também um belo pedaço de truta defumada. É truta marinha, ela tem quase o mesmo tamanho, exatamente a mesma cor, do salmão. A diferença é que eu acho o sabor dela mais delicado, não é tão peixenta quanto o salmão.

Compramos também um potinho de seilaks, que na verdade é o peixe sei salgado, e depois conservado em óleo. É uma delícia. O sei salgado, quanto mais tempo fica preservado, mais avermelhado vai ficando. Hoje em dia, como a salga não é mais um processo fundamental da alimentação (porque existem geladeiras e freezers), o sei não fica tão vermelho, então usa-se corante vermelho. O peixe fica bem vermelho, é um pouco bizarro - mas é gostoso.


Resistimos à tentação de comprar um pote de kaviar de bacalhau também natural. A pasta de ovas não industrializada tem uma cor de café com leite, contra a cor salmão do kaviar industrializado, vendido em tubos. Além disso, na peixaria vendem também bacalhau seco (pelo triplo do preço que paguei na feira local de Styrkesnes), outros peixes secos ou preservados, como makerel, e, pasmem, ovos de gaivota. São uma iguaria, ao menos aqui nesta região. Não tenho coragem... E sempre que os vejo à venda, não estou com a máquina fotográfica.

Outra bizarrice culinária aqui da Noruega (e isso acho que é no país todo, pois vejo na TV da mesma forma)... Os camarões deliciosos que são vendidos aos montes em todos os lugares, são SEMPRE pré-cozidos! Nem nos barcos de pesca que vem do mar - porque eu e Lars, quando queremos camarão, vamos ao pier comprar direto nos barcos - eles são crus. Acho muito frustrante isso... E eles sempre vem com cabeça. Às vezes separo um pouco das cabeças pra fazer caldo de camarão e congelar. Enfim, outro dia - aliás, na véspera do casamento - eu tinha um camarão congelado, e uma sobra de purê de abóbora (vocês não imaginam a alegria que foi no dia em que achei abóbora na loja chinesa! Fiz até doce!!!), e resolvi fazer uns bolinhos de camarão. Bati o camarão cozido e limpo no processador com meia cebola pequena e um pouquinho de dill fresco, mais tabasco e uma colherinha de mostarda com ervas de Provence. Fui misturnado o purê de abóbora à mistura, até ter umaconsistência moldável. Ajustei o sal, forrei uma forma com papel manteiga e coloquei no forno até dourarem - veja bem, tudo já estava cozido, não era necessário cozimento. Foi rápido... Aprontei a comida e saí pra comprar as flores do casório. Quando voltei, Lars tinha traçado mais da metade da assadeira... Ficaram deliciosos, e diferentes. Aí na foto, antes de assarem.


No fim de semana, e durante essa semana, comemos bastante sei fresco. Quando o peixe está pequeno para cortar os filés, eles cortam em postas, e a maneira tradicional de comê-los por aqui - ao menos aqui, na MINHA parte da Noruega, é a seguinte: o peixe cortado em postas é cozido em água com um pouquinho de vinagre e folhas de louro, servido com batatas, flatbrød (o pão sueco) e rømme (creme azedo, tipo o sour cream americano), além disso na mesa tem a manteiga, o sal e a pimenta do reino. Muito frugal, e um pouco insosso, digamos assim, mas é autêntica comida tradicional, de comunidades pesqueiras, consumida dessa forma desde antigamente. O que sempre me encanta nessa cena é que os meus noruegueses comem esse prato simples com uma voracidade impressionante! Como se estivessem traçando um prato extremamente saboroso e voluptuoso. Acho mesmo que o hábito faz o monge, e por isso me sinto uma verdadeira Babette aqui...

E não é que eles não gostem de comidas diferentes, muito pelo contrário. Acho que a questão é mesmo a falta de hábito, e de conhecimento... Cada vez que uso um ingrediente que seja alicerce da dieta deles (como bacalhau fresco ou sei fresco, por exemplo), eles se deleitam ao comer! Já eu não poderei olhar o tal sei cozido por algumas semanas. É preciso realizar uma verdadeira cirurgia nas postas cozidas para remover os ossos e pele, e quando você termina, o peixe está frio... As sobras podem ser comidas no dia seguinte, mas o que muda é o peixe é consumido gelado, sem as batatas dessa vez, mas com uma salada de pepino temperado com vinagre e açúcar.

E pra quebrar esta monotonia de sabores, ontem fiz empanadas argentinas. Porque raios uma brasileira expatriada tem vontade de comer empanadas argentinas, devem se perguntar alguns... É que cresci na Vila Madalena, em São Paulo, perto do antigo Martin Fierro, que era onde é hoje o Empanadas Bar. E o Martin Fierro era só isso mesmo, um bar de empanadas (que vendia alfajores fabulosos), de donos argentinos. Foram crescendo, crescendo, venderam e abriram um restaurante de carnes algumas quadras pra baixo, da Rua Wizard para a Rua Aspicuelta.

Então, eu cresci comendo as tais empanadas, e aliás, poucos no Brasil são capazes de reproduzir o sabor daquelas ali... Depois, em minha viagem à Argentina em 2004 descobri que não são apenas empanadas argentinas, mas são um marco de cada região argentina... Empanadas mendocinas, juaninas, saltenas, e por aí afora. Há também as empanadas chilenas, um caso à parte, mas emapanda é empanada, né? Saía em San Juan, Puerto Rico com minha roomie chilena Claudia pra comer empanadas de camarón (e sabe que as empanadas fritas são praticamente idênticas ao nosso pastel? Fica aí a dica aos expatriados - emapandas chilenas fritas pra matar vontade de pastel! - caso vc encontre um rstaurante chileno ao invés de brasileiro... Nunca se sabe!), sem contar todos os buracos cucarachos no centro de Miami que vendem empanadas. Mas nenhuma NUNCA tão boa como as do Martin Fierro, de Sampa...

Pois bem, estava eu assistindo meu atual favorito show de culinária, o The Hairy Biker Ride Again (a terceira temporada do Hairy Biker's Cookbook), e os dois malucos estavam em Buenos Aires. Depois de muito aprontarem e dançarem tangos com a sutileza de dois elefantes, eles foram a La Boca fazer empanadas. Assistindo, lágrimas chegaram a escorrer dos meus olhos. E parecia tão simples... Mais ficou nisso mesmo.

Lars chegou mais cedo do trabalho, e estávamos morgando no sofá, e a tv ligada ainda no BBC Lifestyle, e começa o show de culinária do Ainsley Harriot. Onde ele está? ARGENTINA!!! E fazendo o quê? EMPANADAS - de frango... Então Lars olhou pramim com aquela cara... Disse "Parece ser muito fácil fazer a massa...". E assim, quase sem mais palavras, levantamos, calçamos os sapatos e fomos ao mercado. Comprei carne (de verdade, não a falsa carne moída que eles vendem aqui, que é um horror de gordura), páprica picante, mais ovos, azeitonas... E depois do almojantar fomos para a cozinha. Segui a receita daqui, e deu muito certo. Rendeu 10 empanadas, que não ficaram lindas, mas ficaram deliciosas, QUASE como as do Martin Fierro. Comemos 9 ontem mesmo, assistindo mais programas de culinária à noite... A última acabamos de dividir, e ficou ainda mais gostosa hoje...

E agora estou às voltas com os bolinhos de bacalhau que prometi à sogra pra o almojantar de amanhã. Dessalguei metade do bacalhau seco que comprei no fim de semana. Os pedacinhos do lombo vou usar para fazer uma salada de bacalhau com feijão (originalmente fradinho, mas como aqui não achei, vou usar o branco mesmo) do bar São Cristóvão, também na Vila Madalena. O restante vai virar bolinho. Ando agora pesquisando receitas de bolinhos de bacalhau decentes... Wish me luck!